Recebam a minha deferência, o meu respeito e a minha profunda admiração pelo que representam para nossa comunidade, pelo que são para nossa sociedade.
Hoje é uma noite festiva para essa casa de Letras e Cultura, chamada de Academia, à moda daquela de Platão, em que se reuniam pensadores e filósofos, cultivadores da arte do pensar.
Hoje nos reunimos para a justa homenagem, mais do que isso, para o legítimo reconhecimento dessas três pessoas que têm dado um sentido maior à sua passagem por esse planeta, por meio da educação e da cultura, fazendo de nossa cidade um lugar melhor e mais bonito de se conviver.
É um grande prazer poder compartilhar desse momento com vocês. Feitas essas considerações, peço licença aos nossos homenageados para a saudação que quero destinar a essa figura que todos conhecemos, reconhecemos e respeitamos MARIA LÚCIA DE CASTRO MAYRINK.
A tarefa a mim conferida muito me honra, mas devo confessar, não é nada fácil. Primeiro, porque por mais que soem bonito, as palavras carecem de legitimidade quando os fatos de uma vida inteira dedicada “ao outro” falam por si; segundo, porque não se reduz a uns míseros minutos a experiência de uma educadora que se confunde e se funde na própria pessoa da Maria Lúcia, não sabendo onde começa uma e termina a outra.
Maria Lúcia vem, ao longo de sua vida profissional, lá se vão mais de cinco décadas, de forma incansável, traçando sua trajetória como educadora, se destacando por sua teimosia em acreditar na educação e, mais, na capacidade transformadora da educação, mesmo em situações graves, como foi na ditadura militar, quando a Escola Pinguinho de Gente foi fundada, nos idos de 1973, e como agora ainda é, diante de tanta insegurança política e da praga da corrupção, que parece estar colada no povo brasileiro.
Mesmo assim, Maria Lúcia segue seu caminho, torna-se assessora da Secretaria de Educação nos vários Governos Municipais; integra, em 1983, a Comissão Técnica de Ensino, implementada pelo Congresso Mineiro de Educação; atua nos Conselhos municipais de Educação, desde 2001 até 2016. Mas, como não podemos, não devemos nos alongar, mesmo porque, já disse, as palavras, às vezes, às vezes, nos atraiçoam
pela incompletude, não cabe aqui a simples leitura de sua biografia, por isso não o farei.
Mas devo dizer, seu trabalho tem um lugar certo e especial na história de Muriaé. À frente, há 44 anos, da Escola Pinguinho de Gente, tem educado várias gerações, acreditando, e tendo como missão, como ensina Paulo Freire, que ensinar não é apenas transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção, na pedagogia da construção do saber, na construção do conhecimento. E, mais uma
vez, vislumbra a educação como um motor propulsor da transformação social, quando, antes até mesmo das políticas governamentais, antecipa, acredita e implanta, de forma pioneira, a educação inclusiva na Escola Pinguinho de Gente, e destrava as portas para muitos pequeninos alunos, que encontram nessa instituição de ensino o direito mais elementar de qualquer cidadão: o direito ao conhecimento, o direito fundamental à dignidade, como dizia Kant, filósofo alemão do séc. XVIII, “quando a coisa está acima de todo o preço, ela não tem equivalente, então ela tem
dignidade.”
Não há como mensurar essa iniciativa, essa atitude na vida dos muitos alunos que por ali passaram, nem mesmo na diferença que fez na vida de seus pais, de seus irmãos, de toda sua família. No entanto, para se ter respeito e admiração, não basta só acreditar na educação,
criar escolas, dar aulas, é preciso ter autoridade moral, que não se obtém por meio de autoritarismo nem de demagogia, mas pelos atos de renúncia, de sinceridade, de firmeza, de determinação, demonstrando equilíbrio e serenidade para enfrentar as
situações adversas por que todos passamos, como nossa homenageada tantas vezes experimentou. É preciso mais, é preciso ter humildade para ser capaz de orientar sem impor, encantar-se com a beleza do outro e não hesitar em reconhecer suas próprias limitações.
Por fim, é preciso entusiasmo pelo saber. Maria Lúcia faz “do ensinar” um lugar de “boniteza e de alegria”, como já dizia Paulo Freire (“Ensinar não pode dar-se fora da boniteza e da alegria.”) – e é isso que vemos, a boniteza e a alegria estão impregnadas em cada rosto, em cada coração de seus alunos, de seus ex-alunos,de seus sempre alunos.
Parabéns! A essa mestra, o nosso muito obrigado!



