Persigo os versos que complementarão o poema, encerrarão o parágrafo da prosa, no encontro final. E nem me vem à cabeça, indigente de palavras, desses momentos que nos assombram, de repente, quando a caneta parece adquirir vida própria e desenha, como sombras a deslizarem docemente
a fina camada de papel.
Talvez eles não existam. Talvez tenham se escondido se julgando inferiores para aquele texto, ou que se julguem a serem usados em situações mais ricas.
Na verdade, o poeta não é dono do verso, quando ele o procura para explicar algo. Não se usa o verso para explicar um estado da alma; não se
procura o verso para completar um trabalho, na falta de uma ideia melhor.
Se você procurar bem por um verso, não encontrará a explicação da vida – coisa tola. Poderá, o poeta, encontrar o inexplicável da vida.
Porque o verso não complementa algo, ele em si mesmo se completa. É equação insolúvel, porque o verso condensa um pensamento completo, desses quando caminhamos sem rumo, e deixamos a mente aberta, e nossos devaneios nos levam para longe, e sonhamos com as coisas impossíveis e fazemos de nós mesmos, descobertas, mesclando nossos segredos com coisas lidas e fazemos poesia, poema e criamos universos.
Porém, o verso em rimas sucessivas é versalhada, o verso em ritmo é letra de música, o verso em desalinho, agressivo, coisa esbugalhada é revolta,
é indignação é de palavras debandada. Ainda assim, o verso não é poesia. O verso é poesia quando é pílula que se transforma em cura, como um
desabrochar de algo grande, escondido que se traduz repentino dentro de você. E você descobre o segredo que o poeta transmitiu sem nem precisar
entender.
Não é coisa simples, é instante, é momento, gesto independente, dono de algumas mentes insolúveis. Verso. Verso não tem anverso, ele apenas é ele
mesmo. Poucos são capazes de dizê-los, somente os poetas os seus tradutores. O verso é enigmático, está na música ou na língua paralisada que
não é capaz de transcrevê-lo.
O verso não está na rima, está na imagem transbordante e a página não é suficiente para contê-lo, e o poeta, até mesmo ele, insuficiente para ser seu
tradutor, por isso é conciso e de significado amplo. Ele pousa e se aboleta, displicente nas janelas abertas, desabrochadas, como uma borboleta azul, amarela, que pousa e, suavemente, espera o momento de te deixar sem palavras.

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