Rede Sindijori de Comunicação
Petrobras: Modelo de Gestão destrói valor em toda
cadeia
Jornalista Deusdedith Aquino – Diretor da Aquino Comunicação e
Marketing
Qual é o papel da Petrobras dentro da sociedade brasileira? E qual
seria o melhor modelo de gestão para que a empresa entregasse tal
valor para o Brasil? Estas duas perguntas que por tantas vezes foram
discutidas ao longo da história da companhia, e muito especialmente
nos últimos 25 anos, retomam à pauta nacional neste triste momento
onde escândalos de corrupção se multiplicam, em número e cifras
impensáveis, e ineficiências administrativas são escancaradas aos olhos
de qualquer analista imparcial. O convite a esta reflexão está posto,
por infelizes razões, e merece a atenção de todos.
A primeira pergunta, sobre o papel da Petrobras em nossa sociedade,
parece permitir maior consenso quando respondida de forma ampla.
Digamos que o papel da Petrobras seja: gerar riqueza através de sua
atuação empresária no setor de Óleo e Gás. Quase todos concordariam.
Porém, ao se aprofundar nos diferentes significados da palavra “riqueza”
na sugerida resposta, a discussão começa a dividir opiniões. Trata-se
de riqueza aos acionistas, através da geração de lucro e pagamento de
impostos – afirmariam os mais liberais; trata-se de fomento ao setor
produtivo nacional, resultando na distribuição e criação de valor por toda a
cadeia, e elevando os níveis de produtividade do país, gerando empregos,
tecnologia e competitividade para nossas empresas – defenderiam
os desenvolvimentistas; ou a “riqueza” seria, talvez, objetivamente a
quantidade de recursos que o Estado conseguiria extrair e direcionar
para as áreas em que o Partido que no poder estiver por sua vez pensar
devido para seu projeto de nação – diriam provavelmente os mais
Estatizantes.Um ponto que merece destaque já de início é que a politização
extremada do assunto, contínua e incisivamente fomentada pelo Partido
dos Trabalhadores, faz muito mal ao debate e à empresa. O tema é de
extrema relevância para o país e a forma que tem sido conduzido acaba por
gerar muito mais calor do que luz. Onde precisaríamos de união e clareza
racional, vemos uma divisão volitivamente amplificada e uma paixão
estrategicamente comunicada ao grande público. Trata-se de um desfavor
que não aprofundaremos mais neste trabalho, mas que merece o registro
feito.
Para não deixar sem resposta a pergunta primeira, informa-se que cerramos
fileira com os desenvolvimentistas nesta questão. Uma empresa do porte
e posicionamento estratégico da Petrobras pode e deve ser indutora de
desenvolvimento e criação de valor e competitividade para o país. O que
nos leva à segunda pergunta: E qual seria o melhor modelo de gestão para
que a empresa entregasse tal valor para o Brasil?
Diante dos fatos presentes, incortonáveis, certo é que o modelo em vigência
falhou. E no cerne deste fracasso, identificamos causas políticas, sim, mas
talvez acima de tudo uma causa principiológica, que determina como tem
agido a Petrobras deste século XXI. Trata-se de uma presunção, oriunda do
pensamento da equipe do Governo Federal, que contamina a alta gestão da
empresa com um sentimento de que a Petrobras é e deve ser autosuficiente
para realizar seus projetos e não precisa, nem quer, ter que dividir muito
da riqueza potencial a ser gerada. Parece que a vontade, se possível fosse,
era de não dividir nada. É quase como um nacionalismo inconsequente de
quem não consegue perceber que vivemos hoje num mundo complexo,
globalizado, onde o poder da colaboração entre empresas, países e pessoas
é essencial para a sustentabilidade dos negócios e, consequentemente, da
economia. Vimos o racional de autossuficiência presunçosa, claramente,
na decisão pelo modelo que restou legalmente decidido prevalecer sobre
exploração nas áreas do Pré-Sal.
Trata-se do sistema de Partilha que, entre outras características que
sobrepesam a Petrobras, obriga a companhia a participar como operadora
de blocos do Pré-Sal e a realizar, no mínimo, 30% dos investimentos
necessários. No bloco de Libra, por exemplo, primeiro do Pré-Sal a ser
licitado, a Petrobras tem 40% de participação. Trata-se de uma escolha que
o Governo Federal fez (aprovada e transformada em Lei pelo Congresso
Nacional, é importante lembrar) pensando em ganhar mais lá na frente.
Num raciocínio simplista e pouco aderente ao mundo de hoje, pensou-se
que garantindo maior participação da Petrobras, e do Governo brasileiro,
na exploração dos blocos, garantir-se-ia maior retorno. Esqueceram-se,
ou não quiseram crer, que para que o retorno futuro exista é preciso se
fazer os pesados investimentos hoje. Por isto as parcerias e a proposta
de compartilhar o futuro resultado são tão essenciais, sempre. O que se
vê hoje, na prática, é uma Petrobras debilitada e incapaz de realizar os
investimentos necessários para tornar aquela potencial riqueza em riqueza
real para o país. Este modelo de gestão presunçosamente autossuficiente,
disfarçado de patriotismo e desconectado com a realidade do capitalismo
global contemporâneo foi um dos motivos pelos quais chegamos a tal
ponto. Uma vez que o objetivo deste trabalho não é apontar culpados ou
listar erros, mas sim contribuir para o debate sobre os próximos passos, que
fique registrado apenas que tal racional, sentimento, presunção não devem
prevalecer. Isto está errado em fundamento e não gera maior riqueza,
correndo-se, na verdade, o risco de destruir mais do que criar valor no
médio e longo prazos.
Agora vejamos que contradição interessante. Apesar da presunção de
autossuficiência, oriundo do pensamento quase ideológico do Governo
Federal,a Petrobras vem contando com o mercado para arcar com seus
compromissos firmados em seus Planos de Negócios. Basta ver o
gigantesco crescimento do endividamento da empresa ocorrido nos últimos
4 anos (mais de 150% entre 2011 e 2015). Hoje a estatal é a empresa não-
financeira mais endividada do mundo, com aproximadamente R$330
bilhões em dívida bruta, conforme balanço do terceiro trimestre de 2014,
não auditado e finalmente divulgado no dia 28/01.A administração
executiva da empresa sabe bem o quanto precisa do mercado. Talvez
governantes tenham mais resistência em perceber, mas o ponto aqui é
claro: como se pode pensar que não se precisa nem quer precisar de
ninguém, quem vai ao mercado levantar recursos de tamanha monta? E
aqui o pior, os recursos foram levantados, mas os investimentos não foram
feitos em sua completude. Nem de perto. O Plano de Negócios da empresa
tem sido rotineiramente revisado, diminuindo-se a previsão de
investimentos, o que foi anunciado mais uma vez nesse 29/01 pela
Presidente da companhia, Graça Foster. O corte seria de 25% no valor
previsto para 2015 (uma diminuição de algo em torno de U$10 Bi, ou seja,
quase 0,5%). A executiva ainda falou que o mote do Plano de Negócios
2015-2019 será o “redimensionamento” da empresa; ou seja,
desaceleração, menos investimento, consequentemente, menos produção, e
menos riqueza gerada para o país.
Soma-se a isto a seriedade das denúncias da denominada Operação Lava-
Jato. O número de pessoas e empresas envolvidas, bem como os montantes
mencionados durante as investigações impressionam e contribuem para a
perda de credibilidade da Petrobras e dificuldade de a empresa rolar sua
dívida, quanto mais realizar os investimentos que pretendia. Apenas para
ilustrar este desafio, a Agência de Risco Moody’s rebaixou todos os
ratings globais da empresa e manteve a nota de revisão negativa. Em caso
de um novo rebaixamento, a Petrobras perderia o Grau de Investimento, o
que seria catastrófico para a capacidade da empresa se financiar, além de
poder implicar em liquidação imediata de alguns contratos de dívida. Uma
lástima. Deste fato cumpre retirar outro ponto relevante para nosso objetivo
de contribuir construtivamente para este debate sobre o modelo de gestão
da estatal: credibilidade é essencial e insubstituível. Muito se falou disto,
inclusive em Boletins anteriores, com relação ao Governo Federal e sua
“contabilidade criativa” para conseguir equalizar as contas nacionais nos
últimos anos. O raciocínio é o mesmo, mas ao se falar de uma companhia
de capital aberto, os efeitos de um descuido irresponsável com a
governança corporativa são muito mais danosos e imediatos. São por vezes
incontornáveis, conta a história, e é muito importante que o Governo se
lembre disto em cada próximo passo. Portanto, considerando que
concordamos todos que o objetivo da Petrobras é gerar riqueza para o
Brasil, nas suas mais diferentes interpretações, temos todos que concordar
também, uníssonos e independentemente de ideologias, que sem
credibilidade perante os mercados não há qualquer chance da Petrobras
conseguir cumprir seu papel de forma sustentável. Nenhuma chance. Além
disso, cabe registrar o risco que traz às pequenas e médias empresas o
modelo de negócios da Petrobras de entregar grandes obras, projetos e
fornecimentos a grandes construtoras e fornecedores. Daí surgem
subcontratações, transferências de execução de partes diversas dos projetos
para uma enorme quantidade de empresas menores que, em situações como
atual deixam de receber das grandes empresas e passam enfrentar sérias
dificuldades financeiras, muitas delas não suportando e “quebrando”.
Para completar este trabalho, é imprescindível tratar do peso no PIB e
relevância estratégica que tem a Petrobras no Brasil. Aqui a análise deve
ser objetiva: um corte no orçamento da empresa é um golpe direto na
economia real do país. Acima reverberamos a notícia de um corte nos
investimentos de cerca de US$10 Bi. Precisamos relembrar que isto seria o
valor injetado na economia diretamente pela Petrobras, gerando muito mais
valor na cadeia, com um efeito multiplicador, caso o investimento viesse a
ser realmente feito. Trata-se de um golpe que atinge toda a cadeia de Óleo
e Gás brasileira e sai destruindo valor nas mais diversas ramificações onde
esta influencia. Considerando-se que grande parte desses fornecedores
impactados, que geram, por sua vez, impactos em seus fornecedores, são
empresas brasileiras, muitas vezes de médio portes, pode-se afirmar com
segurança que o atual modelo de gestão da Petrobras está destruindo valor
potencial na economia real. É bem verdade que a tentativa de se
estabelecer uma política industrial para o setor vem sendo feita, desde o
final dos anos 90 e acentuada com a obrigatoriedade do uso de Conteúdo
Local, a partir de 2003. As Federações das Indústrias, unidas em sua
Confederação Nacional da Indústria – CNI, tem sido parte determinante
deste esforço para garantir que a Petrobras cumpra um papel
desenvolvimentista estratégico no país. Apesar dos avanços normativos
desta pouco mais de uma década de obrigatoriedade de Conteúdo Local
(em percentuais mínimos globais fixados nos editais de licitação para
fornecimento à estatal), sabe-se que o resultado almejado não foi ainda
alcançado e que muito há para se aperfeiçoar no processo. É preciso que
haja, por parte do Governo Federal e da Petrobras, um maior
comprometimento em apoiar a cadeia fornecedora, de forma mais
específica e quase granular, para que torne, inclusive, viável à mesma
fornecer para a estatal os produtos a preços competitivos e em volume e
qualidade bastantes para suprir, com eficiência, a demanda da petroleira.
Não é suficiente, nem estrategicamente certo, apenas estabelecer a
obrigação à Petrobras e garantir uma demanda (quase) certa. Este deveria
ser somente o ponta-pé inicial de tal política industrial – que poderia e
pode se tornar benéfica tanto para a empresa quanto para fornecedores,
trabalhadores, e fundamentalmente para o Brasil. Mas é preciso fazer mais
para que lá cheguemos. Hoje vemos, por muitas vezes, que não há no setor
produtivo a capacidade instalada para suprir a demanda da Petrobras. Mas
isto não advém da falta de vontade do empresariado em participar deste
boom que se previu nos Planos de Negócios da companhia. Certamente o
querem fazê-lo, mas encontram os entraves de sempre, incapacitantes, do
ambiente de negócios brasileiro – juros altos, alta carga tributária,
burocracia, precária infraestrutura, entre outros tantos que de perto
conhecemos. No caso da Petrobras, ainda tem o agravante de a própria
empresa gerar uma incerteza no mercado, com rotineiras revisões de
especificações, mudanças nas previsões divulgadas e alterações de
cronogramas. Uma política industrial não se conclui numa determinação
legal de geração de demanda. Por mais que no papel possa estar escrito
“cumpra-se”, o verdadeiro impacto é, no máximo, um “que se tente
cumprir” e o resultado será o que foi possível ser feito. No estrito âmbito
do modelo de gestão da Petrobras, cumpre dizer que a empresa poderia,
sim, trabalhar ainda mais para desenvolver seus fornecedores, contribuindo
com o Governo e entidades sindicais na identificação e supressão dos
desafios da cadeia, e, ainda, ampliar seus níveis de governança e
previsibilidade, para tornar o desafio empreendedor dos fornecedores mais
factível e atrativo.
Concluindo, podemos sumarizar as ideias aqui expostas em (1)
identificação de que o modelo de gestão atual da Petrobras está destruindo
valor na cadeia e pode resultar em danos ainda mais graves à empresa,
aos fornecedores, e à toda economia e potencialidade do Brasil; e (2) um
novo modelo de gestão deve ser pensado, dialogado com a sociedade e
com os mercados, e colocado em prática imediatamente, com foco em (2.1)
recuperar a humildade e concluir que se precisa, sim, de colaboração e
divisão dos trabalhos/investimentos hercúleos que precisam ser realizados
hoje, para que as riquezas potenciais do país, especialmente o Pré-Sal,
venham a verdadeiramente existir e causar qualquer efeito; (2.2) reformular
e garantir Governança Corporativa que permita à companhia recuperar e,
no futuro, alcançar níveis exemplares de credibilidade, para a manutenção
do Grau de Investimentos da financiabilidade da empresa através dos
mercados; e (2.3) agir de forma mais ativa e aguda no estabelecimento e
implementação de agenda que permita a real transformação de uma política
industrial bem intencionada em política industrial bem executada e com
resultados práticos benéficos à toda a sociedade brasileira.
Mais uma vez, registra-se que este artigo visa apenas fomentar a reflexão
sobre este importante tópico, especialmente neste momento decisivo em
que vive a Petrobras. Não se pretende com este texto esgotar o assunto,
nem tampouco imaginar que se conclui aqui uma proposta para um novo
modelo de gestão da estatal. Longe disto. Trata-se de quase um convite
para que o leitor pense, transforme e acrescente suas ideias, levando este
relevante assunto a um debate construtivo e necessário.
____________________________________________________________