Rede Sindijori de comunicação
Pacto pelas Águas
Olavo Machado Júnior
Presidente da Fiemg
Tinha decidido aproveitar este espaço para propor uma profunda reflexão
sobre a missão dos congressistas – deputados e senadores – que tomaram
posse em fevereiro. O cenário é de grave crise, com a economia em
frangalhos e com a credibilidade do governo e do Congresso em seu mais
baixo patamar por razões que todos conhecemos. A idéia, que mantenho, é
a instituição de um grande pacto mobilizador de todos os segmentos da
sociedade e que, ao apoiar-se no estabelecimento de compromissos de real
interesse do país, se contraponha ao fisiologismo deletério que corrói a
capacidade nacional de retomar os caminhos do desenvolvimento.
Mantenho a proposta do pacto e expresso a minha crença de que
valorização da classe política – enquanto for possível tentar – é fundamental
para enfrentarmos os desafios com os quais nos defrontamos o exemplo da
hora é a gravíssima crise no abastecimento de água que de forma crescente,
já atinge regiões que julgávamos a salvo. Assim como ocorre com a crise
de abastecimento de energia – os constantes apagões estão aí a nos lembrar
de que andamos sob o fio da navalha – o desabastecimento de água tem
uma explicação indesmentivel : incapacidade institucional de gestão do
governo em seus diversos níveis. Não vamos resolver o problema se
prosperar a prática vigente, o qual o governo federal acusa os governos
estaduais pela falta de água e estes responsabilizam o governo federal pela
crise de energia. A culpa é deles, sim, mas apenas repisar este fato não
trará a solução. Em Minas, a Copasa dá o bom exemplo ao encarar de
frente o problema e tratá-lo com transparência na comunicação com a
sociedade e realismo compatível com a gravidade da situação. Não nos
enganemos: a crise hídrica é efetivamente grave e de longa duração. Em
sua recém-encerrada reunião anual, o Fórum Econômico Mundial
classificou a crise de água como a de maior impacto que o mundo irá
enfrentar nos próximos dez anos. No Brasil, estudos científicos de alta
credibilidade apontam para o agravamento do cenário diante da real
probabilidade, de continuidade de baixos índices de chuva nos próximos
anos. É preocupante, pois nossa matriz energética é predominantemente
hidráulica e a nossa economia, extremamente dependente de recursos
hídricos, também relevantes do ponto de vista social e ambiental. A
solução a esse desafio passa, necessária e obrigatoriamente, por políticas
públicas construídas de forma pactuada entre os diversos segmentos da
sociedade e capazes de gerar ações emergenciais, de curto, médio e longo
prazo. Reafirmo: insistir em apenas eleger culpados em nada ajuda. A
gravidade do cenário exige transparência, planejamento, eficaz
comunicação com os usuários e criatividade – não a criatividade utilizada
no passado recente para manipular a contabilidade das contas públicas
federais. É preciso ir adiante. Nosso país já dispõe de um arcabouço legal
avançando e também de experiência e conhecimento técnico e cientifico.
Precisamos, agora, estabelecer novos paradigmas a partir da premissa de
que a água é um recurso escasso e finito, sempre – e também precisamos da
união de todos – o pacto – em torno dos comitês de bacias hidrográficas.
Para dimensionar bem as soluções a serem adotadas, também precisamos
reconhecer que os índices nacionais de coleta e tratamento de esgotos são
baixos e inaceitáveis para um país da dimensão do Brasil. Ademais, esse
setor – saneamento básico – tem importante contribuição para a melhoria da
situação dos corpos hídricos. Além disso, são também inaceitáveis, quase
criminosas as taxas de desperdício de água tratada em razão de problemas –
vazamentos e outros – que ocorrem nas redes de distribuição de todo o país
e que variam de 30% a quase 50%. Resolver essa questão é passo
fundamental para equacionar o problema de oferta de água e, também, uma
significativa contribuição para reduzir as tarifas extorsivas cobradas dos
consumidores. Esse é o caminho da solução e é nele que queremos avnçar.
Consciente de sua responsabilidade, a indústria vem fazendo sua parte. O
percentual das empresas que reutilizam até metade da água que consomem
dobrou nos últimos anos e, conforme o Guia Exame de Sustentabilidade,
em muitas delas o reaproveitamento é superior a 80%. De sua parte, a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) estruturou uma rede de recursos
hídricos que mobiliza representantes da indústria de todas as regiões do
país – uma rede voltada ao desenvolvimento, aprimoramento e divulgação
de ferramentas e metodologia com foco em boas práticas e uso responsável
da água. Em Minas, a Fiemg desenvolve projetos e iniciativas para
capacitar e tornar a indústria referência na utilização eficiente da água.
Essa é a maneira como a indústria contribui e, nessa empreitada, será muito
bom, produtivo e decisivo, contar com o apoio e a efetiva participação dos
deputados e senadores que assumiram os seus cargos. É para isso que
foram eleitos.
Palavra do Presidente