Quando uma criança começa a despertar para o mundo, as suas primeiras perguntas começam sempre pelo “Por quê?”, como um início do questionamento da vida. Essa é uma maneira de despertar para as coisas do mundo que lhe causam estranhezas, possivelmente (afinal, para o pequeno ser, o mundo será um palco para descobertas). Satisfazer a criança nos traz um pouco da inocência dos primeiros anos, quando nós também iniciávamos nossa caminhada terrestre.
A inclusão do “por quê?” vem da dúvida. Duvidar não pode ser visto como insegurança, como covardia ou como ignorância diante dos fatos, ou dos acontecimentos, das decisões que devemos tomar. Duvidar é, antes de tudo, uma maneira de sobreviver, de ultrapassar obstáculos, e também se devemos seguir fulano ou beltrano, uma ideia, um arroubo ideológico e, principalmente, não dar palco para falsos ídolos. Duvidar é uma armadura contra aproveitadores e espertos.
Não temos a obrigação de saber tudo, temos espaços no pensamento onde habitam a incerteza e a vontade de descobrir, de criar e de inventar e se reinventar. A dúvida é o nascedouro da criatividade, quando decidimos abandonar uma corrente para seguir um caminho próprio. A dúvida é o espaço onde a curiosidade assume seu grau de investigação e decidimos destravar uma porta, antes proibida, para entrar em outros espaços não antes imaginado: um cientista revoluciona quando questiona uma teoria; um crente se reinventa quando alguém decide manipular as crenças em proveito próprio. A dúvida leva o aventureiro a duvidar daquilo que está vendo, e o faz parar diante da neblina que esconde os lugares desconhecidos. Logo, a dúvida é que nos faz relutar em abandonar a nossa zona de conforto, mas nos faz refletir sobre a criatividade, uma maneira de fazer diferente daquilo que a maioria faz. A dúvida nos faz ser o diferencial diante da passividade. Ao contrário de nos atrasar ela nos faz avançar, cautelosamente, como todo aquele que duvida faz.
A dúvida leva ao aprendizado, saindo das incertezas para as descobertas. Logo, duvidar é evoluir e não um sinal de timidez, porque ela nos protege do manipulador e do aproveitador. Nada mais irrita o ganancioso quando aquele, que decide fisgar, duvida.
Por esses motivos, duvidar é um ato corajoso e destemido diante da maioria que nos afronta. Quando alguém no grupo duvida faz com que todo o grupo se questione, então duvidar também pode ser a qualidade do líder, quando questiona as ideias e os motivos para a rebeldia ou pela escolha dos momentos de parar e pensar. Quem duvida pensa, quem não duvida comete desatinos e atos de falsa coragem.
Aqueles que duvidam das palavras não desejam se rebelar contra o mundo. A incerteza é uma fonte de preocupação. Afinal, ninguém pode adivinhar o futuro, e o futuro é feito de descobertas, e descobertas nos levam a outros paradigmas, por colocar em xeque as verdades preestabelecidas. O manipulador e o aproveitador esmorecem diante do indivíduo que duvida e, também, do grupo que duvida.
Duvidar é dizer não sei, e aqueles que admitem não saber de tudo mostram a humanidade latente em si mesmos.
Se duvidamos de seguir por uma estrada, de amar incondicionalmente, de abraçar uma causa, ao contrário de ser um ato de insegurança, demonstra nossa capacidade de reagir, de confiar em instintos ou, simplesmente, seguir aquilo que aprendemos. Até mesmo quando questionarmos aquilo que aprendemos é um grande passo para encontrar novos rumos e se deparar com novas descobertas e, por que não dizer, novas dúvidas.