Os modernos gurus, os coaches, insistem em falar de uma tal zona de conforto, e que é preciso que saiamos dela para poder melhorar a nossa vida.

Fico imaginando alguém deitado em uma rede, em uma praia qualquer, de águas límpidas e areia branca, olhando para aquele horizonte e decidir abandonar sua zona de conforto e enfrentar uma batalha que nada tem a ver com ele. Apenas porque alguém, saído de não sei onde, decide que aquela zona de conforto o prejudica.

Outras vezes, penso em um sujeito muito rico, milionário, viajando pelo mundo que decide que aquela zona de conforto não é suficiente para ele. Então, ele decide abandonar tudo e abrir uma padaria em uma cidade no interior apenas para testar seus conhecimentos e possibilidades. Alguém consegue imaginar isso?

Ou então, em uma reunião de uma grande empresa, em um auditório repleto de funcionários preocupados como pagar o boleto que está espetado na geladeira, todos decidissem abandonar uma zona de conforto e chutassem o balde.

E eles aplaudem e balançam suas cabeças, apenas para que os chefes os vejam decididos a sair da sua zona de conforto, que é a expectativa de a empresa, de uma hora para outra, decidir fazer um bonde de demissões, ou então na iminência de ser vendida e sofrerem o mesmo destino. Ou no caso de ela fechar e todos saírem de suas zonas de conforto e irem para o desconfortável espaço do desemprego.

Acho um disparate alguém se dirigir para esses funcionários e dizer que estão em uma suposta zona confortável quando precisam bater as tais metas e estão ali perdendo tempo ouvindo aquilo; trabalhando para alguém que se julga capaz de ofendê-los dizendo tais coisas.

Por outro lado, temos a saída da caixa. Aquela expressão de que precisamos pensar fora do contexto, imaginar outros horizontes e perspectivas.

Quando ouvi isso, pensei que talvez o que eu fiz não tivesse nada a ver comigo. Eu gostaria de ser um marceneiro, um escritor, um poeta, um aventureiro que saísse pelo mundo. E se fosse um nativo que falasse inglês, invadisse o mundo ensinando a língua tão cobiçada em troca de casa e comida. E teria muitas histórias e paisagens para contar e descrever.

Para isso, precisaria abandonar a minha zona de conforto, quem sabe um bom emprego e remuneração para abrir a caixa e fazer a maior burrada de todos os tempos, da qual me arrependeria pelo resto da minha vida. Depois da bobagem na vida, contemplar meus ex-colegas, depois de aposentados, saírem pelo mesmo mundo que eu percorri aos trancos e barrancos hospedando-se nos melhores hotéis. Isso sim, uma boa aposentadoria, a verdadeira saída da caixa para uma zona de conforto.

Na verdade, penso que alguns gostam de brincar com os sonhos alheios. E empregadores também, na verdade, ao chamarem esses ditos coaches para convencerem seus funcionários de que estão vivendo em uma zona de conforto. E assim podem mantê-los em estado de alerta, porque se alguém se atrever a sair daquela caixinha, de verdade, terá uma zona real de desconforto para viver.

É o mundo se contorcendo para dizer as mesmas coisas de um jeito diferente. Portanto, velhos chavões travestidos de modernidades são apenas velhas estratégias para enganar novos clientes. Ninguém veio ao mundo a passeio. Simplesmente somos jogados de forma aleatória pelo mundo e temos que nos virar. Olhe-se no espelho e diga, sinceramente, o que você pode conseguir da vida para entrar em uma caixinha e viver em uma zona de conforto até o final dos dias.

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